
Cântico das Sombras
Não me cabe cingir a fronte
Com o signo magno da poesia
- Posso criar mulas e vomitar búfalos,
Cavalgando, inadvertidamente,
O sempre dócil corcel da vaidade humana!
- Posso acender um palito de fósforo
E, na minha cabeça, gerar sóis...
Arremedo grotesco de Deus!
Sangro bisões nas cavernas da alma,
Dessa alma que se repete
Na pedra bruta de mim...
Isso pode ou não ser poesia!
Não me cabe dizer nada...
Só me cabe sentir,
Intuindo as palavras dos sem-palavras
E ser a voz dos Zés e das Marias,
Meus irmãos,
Até abrandar seu olhar-punhal,
Até colher as bênçãos e as maldições choradas
- Filhas espúrias do preconceito e da miséria!
E suas lágrimas, decantadas em poesia,
Faiscarão na concha das mãos
E escorrerão entre os meus dedos.
Não me cabe dizer nada...
Só me cabe alcançar o sonho fugidio
Oculto atrás da Lua
- Bendito o sonhador!
Então, irmão dos bêbados e das crianças,
Com eles repartirei pedaços de mim
Nas palavras indomadas, trôpegas,
Na tonteira dos sentidos,
Nas declarações inocentes - e verdadeiras -
De loucura,
Empalidecendo o mundo que me cerca...
E brincaremos de ciranda pela rua
Até o Sol arrebentar no céu,
No cortejo triunfal dos passarinhos!
Não me cabe dizer nada...
Só me cabe SER, que é o essencial
- Escrevo com a alma e não com as gramáticas
E não faço análise sintática de dores.
Todas as línguas serão mortas
Se não sobreviver poesia nos escombros!
Basta de assassinatos! Basta de mutilações!
O amordaçamento da poesia
É crime de lesa-consciência!
A poesia, a minha irmã poesia,
Está sangrando nas calçadas da indiferença,
Está gemendo nos catres do abandono,
Encarcerada nos livros que a ignorância
- Nova Inquisição! -
Manda queimar com labaredas de desdém...
Não me cabe dizer nada...
Ser poeta não é status! É missão!
Poesia não é erudição! É “sacação”!
Quantos caboclos poetas!
Quantos caiçaras poetas!
Quantos “hippies” poetas!
Quanta poesia há no mar,
No pássaro madrugador
E na cigarra do entardecer
Com seu cântico funeral!
A poesia não está à venda
Nas prateleiras da imbecilidade
E não se prostitui nos poemas mecânicos
Que dançam fáceis nos lábios.
Não nasce a poesia
No alvoroço das metáforas,
Nem morre no sangramento das palavras
Que têm sede de luz
Como têm ânsias as sementes!
Não me cabe dizer nada!
Marcelo Henrique