Ciganos

I

Almas estranhas, seres sem amarras,
Vibrando as castanholas, que são plenas,
Os ciganos entoam cantilenas
No tumulto das danças mais bizarras.

Punhos erguidos, eles são dezenas
À beira da fogueira e à luz das jarras;
Na tristeza de todas as cigarras,
A dor choram cantando – almas serenas!

Confesso que os invejo, de verdade:
Seu destino é o das aves e dos rios
E a sua vida é um hino à liberdade.

Povo sem fé, sem deus e sem bandeira,
Dançando em libertinos rodopios,
A sua pátria, agora, é a terra inteira.


II

Ciganos, o destino é indevassável!
Cada um de nós, na vida, é sempre um pária
Que esquece a antiga pátria originária,
Mas sente uma saudade inexplicável.

Que força, que energia extraordinária
Esse mistério sempre indecifrável?
A vida se renova no insondável
Em face dessa morte imaginária.

Ciganos, meus irmãos: nesse ir-e-vir,
É preciso chegar, depois partir...
Ser cigano é também ser bumerangue.

Por atavismo, a dor dos ancestrais
Acampa e faz vigília em nossos ais,
Na peregrinação que está no sangue.


Marcelo Henrique