
Pequena Canção da Vida
O livre som dos maracás vai pelas
Trilhas do peito, alimentando o açoite;
Sublima a dor, rasgando o véu da noite
E seu tapume feito só de estrelas.
Sou vida e luz! No seio da floresta,
A natureza é templo de oração.
Buscando a Deus todos agora estão,
Na vibração de amor, que é manifesta.
Na vastidão do mundo indiferente,
Saio de mim, numa euforia imensa:
A parte racional, que sempre pensa,
É nada perto da parte que sente!
O corpo é só boneco feito de ossos!
Nas almas é que os seres são gigantes!
Daquele ser pedante que eu fui antes
Só restaram, enfim, os meus destroços...
Sou “eu” – há muitos “eus” dentro de mim:
“Eus” sofredores... “eus” em plena luta.
Eu baixo a guarda e esqueço essa disputa,
Pois foi para servir que ao mundo vim.
Luar e lótus – no meu peito, a chama
Da vida se reacende e mais me eleva,
Como se fora a luz vencendo a treva,
A luz do amor de Deus que, hoje, me inflama.
Os meus amores, as almas queridas,
As almas de minha alma e meu afeto,
Perpassam num desfile tão completo,
Unindo minha vida às outras vidas...
Agora, sei que o corpo é mesmo um templo:
Em mim, eu sinto sensações intensas,
Eu sinto “forças”... sinto até “presenças”
E, em formas vagas, quase que as contemplo.
A humanidade é apenas uma tribo
Sujeita à sorte dos cruéis abalos...
No fundo, os mais sensíveis são “cavalos”
Sem rédeas, sem espora e sem estribo.
No corpo, somos pássaros cativos,
E a parte mais sutil de todos nós
Percebe o som e quase ausculta a voz
Dos que chamamos “mortos”... e estão vivos!
Volto feliz à luta, mais refeito,
Haurindo um novo ar, que é luz divina,
Abençoando a dor, que sempre ensina,
Sentindo um bem-estar dentro do peito.
Respiro a pulmões plenos... liberdade!
Sou menos ânsia e sou mais calmaria,
Timbrando as horas deste novo dia
Com o que hoje eu concebo por “verdade”.
Há milagres na vida... e nos invade
Esta ânsia de aspirar à vastidão.
O ser humano é edênico falcão
Crocitando no azul da eternidade!
Que cada um de nós procure o indício
Do depurar de si, feito cascalho.
A evolução consiste de trabalho
E não na busca, apenas, de prodígio!
Agora, é se ajudar... Todos avante!
Aquele que mais ama e mais reparte
Já estará fazendo a sua parte,
No contributo para o semelhante.
Marcelo Henrique