
Poemeto Circunstancial
(um cão, um ator e um poeta – enredo para ser menos triste)
ao ator Cleber Donizeti
Nas horas que avassalam nossas ânsias,
Mendigamos palavras, que são pão,
O pão espiritual que une distâncias
Que separam o poeta, o ator e o cão.
O cão, afeito aos becos e às vielas,
Embrutecido pelo mundo-cão,
Mostra, em ganidos, todas as mazelas,
Latindo de cansaço e solidão...
O poeta se aproxima e, displicente,
Tentando a alma canina conquistar,
Indiferente ao mundo indiferente,
Mais se lança à conquista singular.
O ator, que assim o encontra, despojado
Da frieza das máscaras sociais,
Detém os passos como que tocado
Pelos tristes latidos ancestrais.
Em seus latires, plenos de segredos,
O cão ensina o poeta e ensina o ator:
É preciso vencer todos os medos
Pra conquistar um verdadeiro amor...
O cão, o poeta e o ator, que andavam pelas
Ruas, param na esquina a esperar
A carícia noturna das estrelas,
Pois trazem na alma essa alma do luar...
... E o sangue rubro que parteja a aurora,
Sem desfile de poses e altivez
- A alma do artista sangra, quando chora,
E morremos um pouco a cada vez!
Marcelo Henrique