
Rejeição de Órgão
Um dia, quem viveu doando a esmo
Do entusiasmo pleno de viver
E do cansaço atávico do ser,
Na lágrima e no riso de mim mesmo,
Ao caminhar na faina do servir,
Abandonando o corpo, meu legado,
Ainda mais de mim terei doado
Se a Ciência bendita o permitir:
Os rins hão de guardar, de outras andanças,
Além da irreverência dos caminhos,
Resquícios antiqüíssimos de vinhos
Que já filtraram sonhos e esperanças;
Os olhos de um poeta - a antevisão
Que até já fez chorar quando fez ver
Das luzes do primeiro amanhecer
À treva atemporal da incompreensão;
E até os membros lassos se, também,
Num milagroso avanço cibernético,
O abraço reviver num corpo cético
E as pernas caminharem com alguém;
A massa cerebral, o seu poder
E a memória com fama de prodígio...
Que possam dar a outrem o prestígio
Do pretenso e paupérrimo saber.
Que tudo em mim ressurja na versão
Dos implantes, transplantes e outros tais,
Levando vida para os hospitais,
Àqueles que inda esperam doação...
Mas o meu coração requer exame.
Para ser franco, é um pobre revoltado
Que, em outro peito, após ser transplantado,
Pode causar um público vexame.
Se for soldado, é certa a rejeição!
Recoberto de nervos, pele e farda,
O pobre há de ficar na retaguarda,
Pulsando, fraternal, por compaixão.
Se sacerdote, é infarto na homilia!
Pra o coração, o doce e bom Jesus
Há muito tempo já desceu da cruz
E o Deus em que ele crê é energia.
Se deputado ou mesmo senador,
Nem pulsará no peito do sujeito
Num gesto solidário a tanto peito
E em repúdio aos palanques do terror!
Dôo o meu coração, seja a quem for,
E o seu pulsar dolente, quase puro,
Vai brasonando a crença no futuro
Num tique-taque feito só de amor!
Marcelo Henrique