
TRILOGIA
I - Ascese
O Ganges corre em mim... eu sou roteiro
De um rio de renúncia e de saudade
E a correnteza é um bárbaro que invade
O sacrossanto culto de um mosteiro.
O peito - o meu altar à liberdade -
Dos cânones da dor é prisioneiro;
Há cicatrizes pelo corpo inteiro
E os sulcos da alma são minha verdade!
Meu coração, às vezes, se transmuda
Em madrugadas que não mais avisto
E para essa Índia antiga me transporta...
Na reverência que incensava o Buda,
Na minha crença hindu, sentia o Cristo
Nos deuses vivos de uma Idade morta!
II - Avatar
Nos templos, nos pagodes do deus Brama,
Renego o culto à Kali e a oblata a Shiva.
A minha nova aspiração votiva
Tem o fervor do iogue que se inflama.
Todo o Mahabharata é força viva!
O Bhagavad-gitã é intensa chama!
É a palavra divina que conclama
À lei do amor, que é a lei definitiva.
Vidas e mortes - cruzo os hemisférios
Na evolução de uma alma - a jóia rara
Que se infundiu na natureza humana...
Navegante de todos os mistérios,
Mergulhei nas águas do Samsara
Até atingir as luzes do Nirvana!
III - Krishna
Alma pagã que sofre em longa espera,
Banhada em sangue, em vinho e no veneno
Do orgulho que não sabe ser pequeno
Do desamor que te transforma em fera...
Repara em ti, no singular aceno
Do peito que te acusa e se oblitera,
E compromete a eterna primavera
- Teu equilíbrio cósmico e sereno!
Encontra, nos antigos avatares,
A tua fé mirrada - flor de lótus!
Na idolatria, à luz dos camafeus...
Na tua conversão, se te encontrares,
Celebrarás os mais ardentes votos
À consciência universal de Deus!
Marcelo Henrique