
TROVAS DE MARCELO HENRIQUE
Feliz quem sufoca os ais
em prol do irmão, se preciso,
e, em trevas ocasionais,
esparge a luz de um sorriso!
* * *
Lá na terra da incerteza,
órfão de Deus e do amor,
eu sou filho da tristeza
e irmão caçula da dor!
* * *
Castro Alves: vede, nas praças,
seminus e sem comida,
seres de todas as raças
no pelourinho da vida!
* * *
Sê trovador, sem confisco
de emoções, erguendo a voz.
A Oração de São Francisco
começa dentro de nós...
* * *
Eu já não busco chancelas...
Se o mal é sempre sagaz,
é na magia das velas
que invoco os meus orixás!
* * *
Não me envergonho do amor;
fazendo o bem, me concentro:
sou flores no exterior
e guardo espinhos por dentro.
* * *
Repara, por onde for,
que a fome de teu irmão
é de carinho, é de amor...
e muito menos de pão.
* * *
Há nos palácios da Terra,
por interesse fugaz,
novos senhores da guerra...
nenhum escravo da paz.
* * *
Deus, que é pai de amor profundo,
nos inclui sempre em seus planos:
não nega atalhos do mundo
à tentação dos humanos.
* * *
Bendita a boca adornada
por luzes que a fé inspira,
que nunca fica manchada
pela nódoa da mentira.
* * *
Não contraias, na revolta,
novas dívidas de sangue
- pedra antiga sempre volta
transformada em bumerangue.
* * *
Sem temer as represálias,
as coisas que o mundo diz,
que eu seja o pó das sandálias
do Pobrezinho de Assis.
* * *
Com nossa maturidade,
a triste constatação:
os amigos de verdade
são espécie em extinção.
* * *
Nas dores que me consomem
no sofrimento do adeus,
por minha força, sou homem;
por meu sorriso, sou deus!
* * *
Eu vejo mãos cadavéricas
brotarem de um corpanzil,
plantando o pão das Américas,
sem ter seu pão no Brasil.
* * *
Há vis combates e agravos
ceifando vidas, sem dó.
Quantos jovens são escravos
dessas “carreiras” de pó?!
* * *
Navego, de alma iludida,
em águas prenhes de escolhos...
Se há trevas em minha vida,
procuro a luz dos seus olhos.
* * *
Dois cálices... duas mesas
que a mesma dor persuade:
nosso brinde é de incertezas
nas libações da saudade!
* * *
Lugar profano, sem norma,
outras vezes, um altar.
– Como muda e se transforma
a mesma mesa de um bar!
* * *
A bênção, pai! Não te espantes
com meu afeto... eu cresci,
deixando o menino de antes
se aproximar mais de ti.
* * *
Além do horizonte, és fonte
das luzes que disseminas:
quem beija Belo Horizonte
oscula a destra de Minas!
* * *
Senhores: eu não aceito
que a inconseqüente batalha
abra a trincheira do peito
para o tampão da medalha!
* * *
Com mil beijos, não te iludas
carícias mataram sábios...
há muito beijo de Judas
trazendo cicuta aos lábios!
* * *
És mais cristão quando irmanas
poderosos e plebeus:
luz sobre estradas humanas
e sombra humana de Deus!
* * *
Parece mesmo provado,
no indiferente dispor,
que o teu ciúme velado
também é prova de amor!
* * *
Por conduzir-me, fraterno,
agradecer-te eu quisera,
corpo amigo... o rude inverno
sempre é grato à primavera!
* * *
Ontem, no circo, a criança
mandava a tristeza embora;
hoje, a vida – por vingança! –
ri do “palhaço”... que chora!
* * *
Já vi mocinhas robustas
ao dólar batendo palmas:
carícias altas às custas
do preço baixo das almas!
* * *
Nesse namoro sem calma
que nos deixa em desalinho,
nossas bocas sugam a alma
da mesma taça de vinho...
* * *
Por mais que a dor me contorça,
no duro chão do revés,
pisas em mim com tal força...
e ainda beijo os teus pés.
* * *
Velhice é fase que a gente
pode ou não se permitir.
É sujeito inexistente
se o entusiasmo existir.
* * *
Foi eleito e, tão precoce,
tomou posse pelo avesso,
sem de caráter ter posse,
sem ter princípio... só preço!
* * *
É sempre a mesma disputa
entre um beijo e outra promessa:
quando um de nós perde a luta
é que o combate começa.
* * *
Chorando em meio à cidade,
abandonado, o bebê
é a presença da orfandade
que o desamor nunca vê.
* * *
Quando eu te abraço e me abraças,
mais aumentando o calor,
são nossos corpos as taças
num lindo brinde de amor!
* * *
Aumentando a solidão,
minha sombra, num motim,
sentindo faltar-lhe o chão,
foge até mesmo de mim.
* * *
Por um detalhe se inflama
e nos mostra, de uma vez,
que nunca perdeu a dama
ou nunca jogou xadrez!
* * *
“Não chores mais por ninguém”,
nesse conselho eu insisto...
eu que choro por alguém
que nem sabe que eu existo!
* * *
Confesso: naquela noite,
face a face, sem ressábios,
era seu hálito açoite...
eram tortura seus lábios!
* * *
A borrasca, sendo breve,
entrega ao olhar humano
bilhetes que a vida escreve
na pauta azul do oceano.
* * *
A Amazônia que eu bendigo
– Berço verde do amanhã –
foge do humano perigo,
pedindo abrigo a Tupã.
* * *
Sem saltos, vê se conduz
tua ascensão, ser humano:
mesmo a pérola, que é luz,
nasceu no lodo do oceano!
* * *
Filho de Deus, que é perfeito,
também o sou de Caim
– anjo que guarda, no peito,
a fera que habita em mim.
* * *
Fazendo esforços e planos
para subir, se esqueceu:
quem sobe em degraus humanos
não sabe o quanto desceu.
* * *
Minha fome me sufoca
fome de anjo decaído,
querendo-te o céu da boca:
meu Paraíso perdido!
* * *
No plenário onde labuta,
“na moita”, Sua Excelência,
entre os filhos da disputa,
já disputa preferência...
* * *
Tem cara de franciscano
e fala aos pobres, de fato:
é dando... o maior engano
que se recebe... o mandato!
* * *
Que o irmão trovador dê prova
de que entre nós não há trono...
Sem monopólios na trova
porque a trova não tem dono!
* * *
Já basta de andar de rastros
feito vassalo da dor...
Maior que o brilho dos astros
é a força da luz do amor!
* * *
Digo “perdôo”... e ainda eu ardo,
com a alma dilacerada!
E o meu perdão, quase um fardo,
é vingança disfarçada!
* * *
Minha alma sofre, mas ama
as dores, e quer vencê-las...
Com pés fincados na lama,
aspiro à luz das estrelas!
* * *
Nem dinheiro ou mesa posta.
Que os talentos, que são meus,
sejam doados em resposta
aos que têm fome de Deus!
* * *
A guerra envergonha a história
e escreve a história de acúmulos:
cada brado de vitórias
evoca o brado dos túmulos!
* * *
Parece feito de palha
o seu corpinho, hoje em dia,
mas quando meu pai gargalha
é bem maior que a alegria!
* * *
O pinheiro que hoje enterra
a velhice dos janeiros
fecunda o ventre da terra,
prenhe de novos pinheiros!
* * *
Professor: o branco giz,
nessa Escola desigual,
escreve a oração que diz
que o Magistério é ideal!
* * *
Tu despertas, de mansinho,
meu instinto predador:
eu faço das mãos um ninho
para os teus seios em flor.
* * *
Peço um “tempo”... e não convenço”
O namoro não vai bem...
Se, às vezes, nem me pertenço,
como posso ser de alguém?
* * *
Sentenças de morte lavras
nessa maneira de amar:
matam-me tuas palavras
e há dois verdugos no olhar!
* * *
Esperança, de verdade,
que contagia os ateus,
é crer que a serenidade
abriga a essência de Deus.
* * *
O puro sangue das vinhas
tem um mágico poder:
eu digo, nas entrelinhas,
o que não posso dizer...
* * *
A Via-Láctea, em chuviscos,
prenhe de luzes, quer tê-las:
pontilha o céu de asteriscos,
gerando novas estrelas!
* * *
Na reeleição, faz barulho:
compõe e costura a esmo,
sem derrotar seu orgulho
para vencer a si mesmo.
* * *
A tua imagem diz tudo
na foto que hoje maltrata...
No altar do criado-mudo,
é o teu sorriso que mata!
* * *
Tem, no garimpo, a alma cheia,
embora escassa a jazida.
Mergulha mundo a bateia
entre os cascalhos da vida.
* * *
Quando a emoção for sujeito
dessa oração que o homem faz,
um tempo mais que perfeito
será regência de paz.
* * *
Velhice – extrato da idade
no derradeiro transpor –
é a soma da caridade
ao fogo fátuo do amor.
* * *
Um dia, irmãos e felizes,
no porvir que o amor descerra,
os homens serão raízes
entrelaçadas na terra!
* * *
Nunca a sombra, em seu fadário,
teve o condão de ser luz
como aquela, no Calvário,
a projetar-se da cruz!
* * *
Nossos vultos desiguais
que, além do horizonte, plasmas,
nos tempos do nunca mais,
são verdadeiros fantasmas...
* * *
À beira-mar, num folguedo,
o séqüito de corais
seduz e beija o rochedo
na manjedoura do cais.
* * *
Quando a Moral é postiça
e se mascara em mortalhas,
a balança da Justiça
é gangorra dos canalhas!
* * *
Fraco embora, cego às vezes,
eu me comparo a Sansão,
destruindo, eu meus reveses,
as colunas da ilusão!
* * *
Presidente: é a tua ação
que induz à desconfiança:
pior que qualquer ladrão
é quem nos rouba a esperança.
* * *
Namorados... e juntinhos,
de mãos dadas, face a face:
no outono dos dois velhinhos,
a primavera renasce!
* * *
“Julieta: o amor concilia
o teu sonhar com o meu;
morro mil vezes por dia,
pensando em ti.” Teu Romeu.
* * *
No Calvário, ao pé da cruz,
a perda foi dom profundo:
Maria abriu mão da luz,
doando luz para o mundo!
* * *
O Sol desmaia e a cascata,
que antes foi berço do Sol,
fecunda o ventre da mata
à espera de outro arrebol.
* * *
O barco engole, uma a uma,
em seu garimpo invulgar,
pepitas feitas de espuma
nas ardentias do mar.
* * *
Tem fé! Segue teu princípio!
Faze do amor diretriz.
Dá alma ao teu município
para ter corpo o País!
* * *
O nosso amor, salvo engano,
e a saudade, juntos, são
contas de um terço profano
no meu altar de oração.
* * *
Vejo forças manejadas
na Genética de ateus:
células-tronco clonadas
frente aos mistérios de Deus!
* * *
Sangue mais quente que as brasas,
levanto estas mãos, num grito,
e choro por não ter asas
para cruzar o infinito.
* * *
Que pena que eu não tivera
esta lição para mim:
que as flores da primavera
infelizmente têm fim.
* * *
Sê como a vela que, em nome
da vocação que a conduz,
mais se doa e se consome
na caridade da luz.
* * *
Ó Deus que os destinos lavra,
atende a minha oração:
que a tua santa palavra
seja o fermento do pão!
* * *
Minha carne, limitada,
na liberdade que anseia,
sonha ser onda inquebrada
sobre os castelos de areia.
* * *
Conselho: se a luz te falta,
coragem! Deus te conduz...
O Sol, deixando a ribalta,
mostra asteriscos de luz!
* * *
Que nunca tenhas negado
a palavra que conduz
– o verbo, quando é sagrado,
brota em rajadas de luz!
* * *
No solo infértil da guerra,
o lavrador cai, exangue.
É a bandeira dos sem-terra
vermelha, sim, mas de sangue!
* * *
Foi mais que pai – foi amigo.
Hoje, passado o torpor,
sua memória eu bendigo
por tantas lições de amor.
* * *
Separe o joio do trigo,
seguindo no mesmo tom
e, amigo dos seus amigos,
nunca deixe de ser bom.
* * *
Preserve, amigo, o riacho
que escala escarpas da serra
para rolar serra abaixo,
sugando o ventre da terra.
* * *
Portando a lira de Orfeu,
Santa Cecília era a ação
que, cantando, converteu
o terror anticristão.
* * *
Não espera... avança e parte,
provando, quando edificas,
que, quanto mais se reparte,
as nossas mãos são mais ricas.
* * *
O desamor é nefando!
Vê se prossegue servindo,
pois quem ora trabalhando
sempre espera produzindo.
* * *
Na faina da enfermaria,
a enfermeira, em seu mister,
é um anjo que Deus envia
disfarçado de mulher!
* * *
Em rimas, percebo, agora,
o antigo amor transformado,
pois, hoje, a paixão de outrora
é verso de pé-quebrado.
* * *
Apesar do desconforto
pelo porre impenitente,
agora, a Granja do Torto
tem um “torto” presidente!
* * *
Minha alma sofre e delira
Num interno labirinto,
por tua falta, Jandira!
Ah, quanta saudade eu sinto!!!
* * *
Eu te dedico, Trindade,
estas trovas – meus carinhos...
Ó recanto da saudade
e pátria azul dos golfinhos!